Tudo indicava mais um domingo sem graça.
Com certeza eu iria acordar bem tarde, assistir muita televisão (filmes, futebol e etc...) e com certeza passaria a noite com a cara no computador, como eu estou fazendo agora. Mas não foi bem assim que o dia se desenrolou...
Talvez um samba-enredo possa me ajudar a explicar melhor. Dá pra percebeu que eu já estou em clima de carnaval...
“Vem amor/Vem à janela ver o sol nascer/Na sutileza do amanhecer/Um lindo dia se anuncia”
É, o domingo se mostrou bem bonito desde o momento em que acordei. Quando saí de casa, pude ter uma visão melhor do dia lindo que estava nascendo. O sol iluminava a rua, que de algum modo parecia dourada. O céu nunca esteve tão limpo e azul. E mesmo com o tempo quente, estava no ar a certeza de que o domingo seria daqueles. Quem nunca desejou que o domingo fosse perfeito a ponto de suplantar os outros dias da semana? Por que domingo é o dia de descanso, de lazer, de jogar aquela pelada que não dá durante a semana, de fazer aquele tricô, de ir à praia...
“Veja o despertar da natureza/Olha amor quanta beleza/O domingo é de alegria”
Enquanto eu estava no ônibus, saindo do meu querido subúrbio de Zona Oeste indo pra Zona Sul, eu ficava olhando os flashes pela janela. Como nunca tinha cruzado sozinho o Centro da Cidade, desconhecia a paisagem depois da Presidente Vargas. Pude ver o Cristo Redentor erguido, cortando o azul do céu, o bondinho do Pão de Açúcar subindo no ar, o Aterro do Flamengo e sua orla, as ruas repletas de cariocas indo para o trabalho e a grande maioria metida nos seus trajes de banho e carregando cadeiras, isopores. Os ambulantes levando cervejas, adereços de carnaval, filtros solares, biquínis – nunca pensei que veria isso sendo vendido na praia – camarões no espeto, queijo coalho, refrigerantes, cervejas, doces, água de coco geladinha, água sem gás, com gás. Tinha tudo pro gosto de cada um. E tudo isso rodeado pela beleza de uma praia carioca.
“No Rio colorido pelo Sol/As morenas na praia/Que gingam no samba/E no meu futebol”
Ipanema é linda demais. Me lembrei de uma vez em que eu vi a praia diante de um fim-de –tarde maravilhoso, faz uns nove anos, eu acho. Assim que eu cheguei lá, veio essa imagem na cabeça: a orla, as pessoas na praia, o céu amarelado, quase laranja, eu arrastando os tênis pela areia. Agora, eu iria entrar na praia mesmo. Encontrei a turma, fiquei um pouco na areia, mas não queria sair da água. Alias, ninguém queria. O Rio estava colorido e o sol proporcionava o maior brilho. As águas de Ipanema se levantavam saudando todos que nela mergulhavam com marolas, ora fracas, ora fortes. As areias se desmanchavam com as ondas que as lambiam. E tinham as beldades que faziam a festa dos olhares de quem passava pela orla ou quem estava na areia. São algumas paixões dos cariocas: samba, praia, morenas e o futebol, representado no Estadual.
“Veleiros que passeiam pelo mar/ E as pipas vão bailando pelo ar/E no cenário de tão lindo matiz/O carioca segue o domingo feliz”
Dentro d’água, todos viram os veleiros passeando em direção à Barra. Cada um representando um país diferente. Acho que era uma regata, não sei. Só sei que eles atraíram a atenção de quem estava curtindo o dia. Enquanto isso, tantos outros faziam os papagaios cruzarem o céu num festival de cores. Fosse os moleques e seus pais, tios, irmãos que estivessem nas ruas, lajes e morros, cada um representa algo diferente. O time do coração, uma mensagem de paz, um gosto musical, um grito, um escândalo. Todos adoram o domingo assim, de bobeira. Eu, pelo menos, adoro um domingo assim. Com aquele almocinho de domingo que só minha mãe sabe fazer, de quebra um sorvete de graviola pra deixar tudo bonito (Embora eu goste mesmo de um churrasco daqueles!!!). Mas não posso reclamar, o domingo com os amigos estava muito bom. Curtindo o sol de Ipanema, o mar, os amigos e um algo mais logo depois.
Acabei curtindo meu primeiro bloco de carnaval. No currículo, só tinha as duas vezes que eu fui ao Bola Preta, mas esse foi pra valer. Tudo bem que a Preta Gil se esforça, mas ela não tem aquela força pra puxar bloco. Ainda assim dei muitas risadas: por exemplo, ela tem uma auto-estima lá em cima: ela se acha bem bonita. B-U-C-E-T-A. Bonitaaaaaaaaaaaaaaa! Como nem tudo são rosas, acabei tendo um pequeno incidente: tive minha carteira “sorrateiramente surrupiada”. Quando o cronista que vos fala deu por falta desta, já era tarde. Mas o bom já tinha acabado há tempos, logo quando a gente deu o último mergulho nas águas quase noturnas de Ipanema.
“Vai o sol e a lua traz no manto/Novas cores, mais encanto/A noite é maravilhosa/E o povo na boate ou gafieira/Esquece da segunda-feira/Nesta cidade formosa”
E na volta, vim admirando outro espetáculo. O matiz do dia deu lugar ao crepúsculo, sem que a alegria do domingo morresse. O encanto da noite é qualquer coisa de lindo. Ainda mais vendo o Rio, bonito do jeito que é, anoitecendo. Desde a orla ate o subúrbio o anoitecer é especial. O anoitecer de domingo mais ainda. Mas o de hoje, nem falo. Deixo para a imaginação de cada um! Olhando pra tudo isso, não dá pra acreditar que amanhã é segunda-feira. Como eu ainda não vou trabalhar...
“Há os que vão pra mata/Pra cachoeira ou pro mar/ Mas eu que sou do samba/Vou pro terreiro sambar”
Como eu não fui pro terreiro, sobrou escrever ao som de um samba. E nada melhor do que ouvir “Domingo”, da União da Ilha de 1977. Só ele consegue representar o que foi esse singelo domingo.