quinta-feira, 4 de março de 2010

Continente

Eu nunca parei pra pensar quem eu era de verdade. Enquanto a maioria das pessoas sabia quem era, o que esperava da vida, que veneno carregava dentro delas, eu só me preocupava em brincar. Pra mim, o mundo sempre foi um grande brinquedo, uma eterna sucessão de amarelinhas e pique-pegas. Mal sabia eu que ele estava prestes a dar o maior golpe que eu podia imaginar.

Como dizer, a cegueira foi sumindo pela dor e as inúmeras quedas que eu fui tendo ao longo do caminho. Não podia mais pensar que a vida era só brincadeira. Tinha de me cobrar posturas e atitudes que eu nunca tive antes daquele momento. Um divisor de águas difícil e transformador. Tudo pro que eu estava despreparado. Um novo mundo, repleto de tentações e mazelas me esperava e eu estava sem armadura. Todos enxergavam nos meus olhos a imaturidade daquele que era jogado à força na vida.

O mundo frio estava à minha espera e eu sabia que iria errar tanto até que eu pudesse acertar.

O eco imortal redescoberto

A voz ultrapassa gerações. Ainda me arrepio com a sincronia das vozes desses caras. No começo é um que começa cantando. Depois chega outro e a impressão de que o eco é mais forte permanece. Quando os quatro se juntam, chega a ser assustador. Parece que o trajeto da Bahia até Minas se torna espetacular com os caras do Boca Livre cantando “Ponta de Areia”.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Tranco concertista: Maria Gadú

Aniversário do Rio, as ruas deveriam estar cheias de cariocas saudando a Cidade Maravilhosa. Mas o Rio, tão ensolarado, entrou numa frente fria e parece que estamos inverno. Muito frio e muita chuva. Confesso; eu já estava sentindo falta desse tempo assim. De ter preguiça de levantar e de querer não faze nada o dia todo. A promessa de mais um fim de semana apagado foi por água abaixo. Sexta de noite, fui ver Maria Gadú na Lona de Realengo(é,o subúrbio da Zona Oeste é bem mais do que o presídio de Bangu). Que impacto, ela ainda se mostrou tímida e perplexa com a grande presença do público e como este cantava todas as músicas - eu fui "às escuras" pra ver o naipe dela - mas não é que ela tem uma voz potente e maravilhosa? O que ela fez com "A história de Lily Braun" e "Ne me quitte pas" foi absurdo. Por que eu não tenho outra palavra pra descrever como eu (não) reagi diante dessa bomba que ainda vai explodir. O que eu vi na lona ainda é pouco. Acredito que em breve ela estará no auge.

P.S: "A história de Lily Braun" foi uma música composta pra peça "O Grande Circo Místico" e ficou famosa pela interpretação de Gal Costa. Agora, tem mais uma interpretação famosa. A diferença é que com a Gal, a música tinha uma pegada mais jazz e com Gadú, mais pop.

P.S. 2: "Ne me quitte pas" dispensa apresentações. Maysa destruiu(no bom sentido) pra abertura de "Presença de Anita. E Gadú deu uma levada mais leve.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

passagens sobre o contista do tranco: canto de boa sorte

"...e sempre que estava próximo de algum momento importante ou decisivo, eis que ele corria e colocava "Love Ain't No Stranger", do Whitesnake. A primeira vez foi no vestibular e depois disso acabou virando uma espécie de amuleto, canto de boa sorte..."

Do outro lado...

A dose que ele tinha ingerido tinha sido maior do que ele podia agüentar. Logo sentiu suas pernas cambaleando e seu corpo quase inerte, com dificuldade até pra mexer o dedinho. Oh yeah, que onda maluca essa! Quem tá de fora não sabe o que quem experimentou sente no momento. É mais forte que qualquer alucinógeno caseiro que se vende por aí, é daquelas vibes boas mesmo. “O bagulho é frenético, mermão. Tu não tá me entendendo”. O cara pirou de vez, entrou em alfa, só pode. Nunca vi isso. Nunca mais empresto meu disco “Dark Side of the Moon” pra ele! Ouvindo dez músicas, ele conseguiu ficar mais doidão do que...um consumidor de ervas alternativas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A estratégia louca do Joel

Realmente, há coisas que só acontecem ao Botafogo. Há quase um mês atrás, ele levou aquela goleada impiedosa (com direito a torcedor queimando camisa em circuito nacional) e agora ele sai com o bicampeonato da Taça Guanabara. Obra do destino? Não. Dos “deuses do futebol”? Oxalá fosse. Dos jogadores? Também. Mas o grande responsável por essa virada foi o Joel Santana. Ele deu um gás no time, conseguiu pegar as limitações do time e transformar em garra dentro de campo. E boa parte dessa garra vem do ataque Mercosul (eu já to ficando louco com eles...). Até mesmo, os mais caçados pela torcida como Fahel e Alessandro foram incríveis em campo ontem. Achei que o único que destoou (um pouco) foi o Lúcio Flávio, ele deveria ir para reserva por algum tempo. Confesso que esperava mais do Carlos Alberto e do Dodô, eles conseguiram ser apagados. E falar o que sobre o Caio? Ele foi caçado com direito a uma falta feia que deu o primeiro cartão vermelho pro Vasco. O pênalti não marcado em cima do El Loco? Prefiro não comentar... Pra não estragar a alegria (mas ele foi bem compensado). E o Fábio Ferreira voando no segundo andar pra marcar o primeiro gol foi uma cena de cinema.

Mas alguém sabe qual o segredo do Joel, ou melhor, do esquema da sua prancheta? Meu amigo Bruno deu uma sugestão:

- Ferrolho na defesa, liberdade para os laterais (alas), cão de guarda, um meia técnico, um atacante que sai da área e se movimenta e um (centroavante)fixo fazendo pivô.


Faltou só a cachacinha do nosso comandante pra deixar o esquema no ponto. Só esperando o adversário no seu próprio campo (não o do adversário, pra não ter confusão semântica...). De resto, o Botafogo foi limitado, mas guerreiro. Do jeito que eu sonhava ver. Ainda não é o Botafogo gigante que povoa a memória dos mais saudosistas, mas foi o Botafogo que me fez sorrir como há muito não acontecia. Obrigado, Botafogo. Obrigado, Joel. Obrigado a cada um que esteve em campo e me fez sorrir de novo, mesmo que por um tempo. Obrigado por não me fazer desistir naquele jogo do Vasco e mesmo distante e sem transparecer (a tristeza e a vontade de ver o time vencer) continuar torcendo. Seria hipocrisia da minha parte dizer que eu esperava o título desde o início do jogo. Só depois de um tempo e pouquinho...

E ia esquecendo do principal: BICAMPEÃO!!!!!

O grande circo BBB

A décima edição do BBB está na boca do povo. Não imaginava, na época em que estreou, que o programa tivesse uma repercussão tão forte quanto essa. A ponto de parar a rotina dos telespectadores enquanto é exibido em rede nacional. Lembro de ouvir minha mãe reclamando comigo por que assistia todo dia e gostava. É, não me envergonho de dizer que já gostei do BBB e muito menos sei dizer o porquê de gostar. Na verdade, deixando as fofocas de lado, era interessante ver o quanto o ser humano se degrada por dinheiro e as baixarias que ele comete (sendo assistidas por milhões de pessoas). Hoje já abandonei a curiosidade nem um pouco ingênua– que por mais tentadora, não me seduz mais – e por isso eu o ache bem repulsivo agora. Não são apenas as intrigas e fofocas, mas sim se sujeitar a um espetáculo que não acrescenta em nada à nossa vida (e que, por outro lado, enche os olhos das pessoas e os bolsos dos patrocinadores e da emissora). À frente da apresentação, uma cara pseudo-culto (leia-se fofoqueiro de mão-cheia) que comanda esse universo paralelo que reproduz, distorce e cega a nossa realidade. Quem se prostitui, droga ou vicia não é menos baixo do que um participante do BBB que entra consciente de que vale tudo pelo prêmio. Num país em que a alienação virou atração de horário nobre, nada mais me surpreende. A lavagem cerebral é tão grande que a gente continua ligando pra ver quem sai no paredão de terça-feira.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sem mais tentativas...

Postura ereta, olhos sérios. Eis mais uma tentativa de escrever. Ele já tentou tantas vezes que agora o faz sem nenhuma esperança. A postura beligerante desaparece por alguns momentos, mas pode voltar caso haja algum fracasso. Mesmo próximo da maioridade, é como se ele fosse um adolescente preso num corpo de 20. Tensiona os pulsos e pensa: “É a última vez que eu vou tentar escrever. Se eu falhar, acabou. Não escrevo mais”. É o chamado tiro de misericórdia. “Não é possível, é muito bloqueio de pensamento. Eu só quero voltar a escrever como antigamente. Antes, eram tantas inspirações e agora nada.” Posiciona o dedo no teclado, esperando a chance, a hora perfeita pra escrever. Será que ele fracassa? Ou passa por cima de todas as barreiras mostrando nos cliques das teclas ou a explosão dos pensamentos. As idéias começaram a surgir, ele começa a digitar bem rápido e tudo aparece na tela do computador. Ele pára. A passagem não ficou boa, pensa em mudar. Apaga uma parte, seleciona outra coloca mais em baixo. Consegue encaixar uma idéia na outra. Uma hora depois, está pronto. Foi melhor do que ele imaginava, mas está longe de ser igual aos escritores que ele admira. O que ele não sabe é que necessita burilar o seu próprio. Mas ele aprende. O que importa, de fato, é não ter desistido devido ao bloqueio da mente. Qualquer um se deixa levar pela desistência. Quem gosta de escrever, não. Dá um, dez, cem, mil tiros de misericórdia.

Saturação informacional(e política)

Assistir o Jornal Nacional tem sido dose. Primeiro, o terremoto no Haiti. Depois, os alagamentos em Machu Picchu. Agora, os escândalos em Brasília que culminaram com a prisão de José Roberto Arruda. Não é novidade que Brasília seja um lodaçal de falcatruas, mas massacrar e triturar esse fato repetidas vezes durante dias é de amargar. No fundo, é tática de ano eleitoral. E não gosto de eleição, aqueles carros de som passando por todos os lugares. 15123, 20126,45123 e todos aqueles jingles de campanha que dá vontade de pegar uma arma e estourar os tímpanos! Fora a poluição visual disseminada por toda a cidade. Daqui a pouco, vai ter folheto de candidato no Pão de Açúcar, no Cristo, na Central. Eu não gosto de política, então ver as eleições e esses escândalos na Capital Federal são como um xarope amargo pra mim. Por mais que eu diga: ‘vou parar de ver o JN”, não consigo. O duro é aturar “As Aventuras Do Reino da Politicalha” sem prazo de validade. A política é um câncer sem cura e o Brasil é paciente terminal.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sortes e azares, amores e amuletos: As cinzas no Maracanã "suplantam" o vermelho e preto


Sorte e azar são dois lados da mesma moeda, ou seja, uma coisa só. E ambas estiveram desfilando pelas relvas perfumadas do Maracanã, fazendo mágica com os olhos e o coração de quem estava torcendo. Fosse nas arquibancadas ou no sofá de casa, como eu, que brincadeira foi essa na semifinal de quarta. Todos sabem da rivalidade acirrada entre Botafogo e Flamengo e que eu defendo o meu Glorioso. No entanto, abusando da franqueza: eu entrei para ver o jogo sem esperança alguma. No que dependia de mim, não tinha chance da alguma coisa boa acontecer. Desde a decisão do Carioca de 2007 é que eu fico assim. Me lembro de tudo o que aconteceu nas duas tardes: o Botafogo abrindo dois a zero, o Júlio césar fazendo pênalti e sendo expulso, o Flamengo empatando, no outro domingo o Flamengo saindo na frente, o Botafogo virando o placar, o Flamengo empatando de novo, o Dodô quase fazendo o terceiro gol, num impedimento estranho e sendo expulso e enfim, aquela loteria chamada pênaltis.

Os primeiros minutos de jogo, com aquela pressão do Alvinegro, me deixaram louco. Tal como eu fiquei vendo a comissão de frente da Unidos da Tijuca (aquelas bailarinas trocando de roupa rapidinho é de deixar qualquer maluco, esperando que toda mulher faça a mesma coisa...). E as defesas do Jefferson, meu Deus do Céu. E pensar que eu já vi esse mesmo cara há uns cinco, seis anos defendendo o gol do Botafogo sem a metade da segurança que ele tem agora. O encaixe perfeito na hora da defesa me lembrou um ritmista de bateria segurando com carinho um surdo ou um tambor.

Foi quase um quarto de hora resistindo ao Flamengo. Tenho que dar o braço a torcer: o Flamengo estava bem melhor que o Botafogo. Criando mais, rondando com mais perigo. Acabou merecendo o primeiro gol. Merecendo o escambau, eu odiei. Tudo pra acender o “Império do Amor” (que nome mais apropriado, o Imperador e o Love). Enquanto isso, o “Ataque Mercosul” (Herrera, argentino e El Loco Albreu, uruguaio) estava mais apagado que a Viradouro falando do México na Avenida. Nem tanto, o Herrera corria com sua raça habitual. Mas o Loco estava isolado!!! Ele não é cara de ficar esperando chuveirinho...ele gosta de pegar na bola e enlouquecer!

Claro que a roda que rege a sorte e o azar resolveu me pregar uma peça. Àquela altura do jogo, as reclamações tinham cedido espaço à duvida: será que eu não estava pegando pesado e não devia esperar um pouco mais? (Como na apuração, torcendo pra Tijuca levar o título. Não sou tijucano, mas o desfile me encantou de forma a torcer muito. Quando a Tijuca e Beija-Flor andavam empatadas, eu era só impaciência. Uma hora, alguma delas tinha que ficar à frente.). A resposta veio a seguir: Loco Abreu pegou um bolão, lançou pra Herrera. A pelota explodiu nas mãos de Bruno e eu já pensava: “Mas que m....” quando o Marcelo Cordeiro atirou pro fundo do gol. Voltei a ser um pirralho de três anos que via um desfile pela primeira vez na vida.

E pra dizer que não teve polêmica, teve. Duas de uma só tacada. O Fahel tinha que ser expulso e não foi, o juiz voltou atrás. Ainda bem, por que senão 10 dariam a seminfinal de bandeja pro Flamengo. Que droga, por que aquele ali e nada são a mesma coisa. Eu não jogo nada, mas o Fahel...deixa pra lá, a crônica é de festa. Não vamos estragá-la. Depois, foi o Loco – ávido pra fazer um gol - que meteu a mão na bola pra deixar o seu. Como uma escola que vê seu carro emperrar quase em cima da banca de jurados e corre pra não ser prejudicada.

Já no segundo tempo, minha mãe – uma senhora muito distinta que não entende nadica de futebol, mas se esforça – me alertou: “Quem não faz, leva!” (falando do Botafogo que não criava) e eu devolvi na mesma moeda: “Quem não faz, leva mesmo, mãe!”(falando do Flamengo, que criava, chutava e perdia). Nessa altura do campeonato, a cena do Vagner Love – que mais parece um mico-leão-dourado com aqueles trecos vermelhos na cabeça – lamentando o gol evidenciava um pouco o que eu disse à minha mãe. No carnaval do futebol, nem sempre a melhor escola sai vencedora. Às vezes, quem ganha é a que tem o melhor desenvolvimento do tema (melhor tática) e o melhor patuá (sorte).

E o Botafogo tinha um patuá daqueles. Dois, pra falar a verdade. Um deles estava na beira do campo e apesar de pagar de pudim de cachaça, ele tá acertando o time. O outro, novinho, entrou em campo e numa jogada inacreditável virou o placar. Ver a torcida do Fogão cantando: “Vou festejar, vou festejar, o teu sofrer, o teu penar” era de arrepiar. Ver como a Roda mexeu os pauzinhos e soprou a sorte no caminho do Botafogo era incrível. Ver como o Caio é sortudo era fantástico. No final das contas, não tinha mistério. Ao contrário da Tijuca, que foi campeã falando e fazendo mistério, o Botafogo venceu na sorte. Contando com a garra de alguns, a sorte de outros e a estrela do Caio.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sambista às avessas

Canto em qualquer canto
Vôo de um lado a outro da rua
Numa sambada desajeitada
Num batuque desafinado
Não sou sambista, sinhô
Não sei tocar cavaquinho
Não tenho samba no pé
Mas ele estala meus ouvidos
E as cordas do core, esse tum-tum
Teco-teleco-teleco-teco
Sim, meu maior sonho
É puxar samba desfiando nas cordas
Do meu cavaco de mogno ou carvalho
Perfumado de samba até o afinador
Que me venham Candeia, Clara, Elza
Ataulfo, Noel, Wilson, João
Fazer minha cabeça e reviver esse timão.


(Ainda pegando carona nesse clima de carnaval, fica mais uma pra vocês.)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A Rua do Bola Preta

É carnaval, tempo de folia.

Já fazia tempo desde a última vez em que eu tinha visto o Bola Preta atravessar a Rio Branco. Daquela vez, meu pai tinha me levado e eu não queria outra vida. Por mim, todo carnaval atravessava a rua atrás do bloco. E como diz aquele o samba: “Atrás do bloco (digo, da Verde-e-Rosa) só não vai quem já morreu. Era o Carnaval de 2007. No ano seguinte, veio uma gripe fora de hora que me cortou do bloco. Ano passado, eu estava milhares de quilômetros longe dali, de modo que eu fiquei de fora outra vez. E veio 2010, pra recuperar o esquenta do bloco.

Mas ao contrário dos outros anos, eu acabei ficando de fora do fervo. Pra quem não sabe, o fervo é onde a multidão fica espremida passando junto com o bloco, seguindo, cantando o samba (confesso que eu ainda tenho que comer muito samba-enredo pra fazer bonito nos blocos da vida, posso dizer que consigo cantar uns 10 de letra...o resto...). É pai levando o filhote ou a filhota nos ombros, é marido segurando mulher, é namorada indo com namorado, a vovó pulando com os netinhos, é o grupo de amigos fazendo um auê com a galera. E eu, sozinho, apreciando a paisagem como um legítimo flaneur de João do Rio. Que vem a ser um flaneur? Bem, como resumir numa Lina o que ele estendeu por parágrafos? É o cara que perambula por aí em busca de inspiração para a arte e reflete sobre ela. Expliquei bem? Não sei, mas pouco importa agora.

A novidade é que eu fui sozinho até lá. Não é do meu feitio fazê-lo, adoro aproveitar essas ocasiões acompanhado dos amigos. Por conta de outras razões, isso não ocorreu. Mas por um lado foi bom. Há males que vem pra bem, não é mesmo? Não fosse isso, eu não conseguiria observar as figuras que passaram Rio Branco, Praça Floriano, Rua da Carioca e mediações. Fico pensado como é que no Rio um bairro consegue se desmembrar em tantos sub-bairros; é uma coisa impressionante e absurda. Só pra vocês terem idéia: o Centro da Cidade tem sua complexa geografia Saúde, Santa Teresa, Glória, Lapa, Santo Cristo, Central, Candelária, pra não dizer os que eu ainda não conheço. Contar os pontos de referência na ponta dos dedos então, impossível: Praça Tiradentes, Ouvidor, Passos, Sete de Setembro, Igreja dos Capucinhos, Arcos da Lapa, Rio Branco, Presidente Vargas. É pra deixar qualquer um louco.

Mas voltando ao nosso ponto de encontro, lá estava eu. Um puta sol de quarenta graus, usando um chapéu de bola de futebol, olhando o vai-e-vem e o vem-e-vai do pessoal. Era gente saindo do fervo pra dar um descanso, tomar uma aguinha, uma cerva geladona ou no meu caso, um refrigerante estupidamente gelado (Coca, H2OH pra quem gosta de alternativas). Era gente que tinha perdido a hora e agora queria entrar no meio do fervo. Era gente querendo chegar perto do bloco pra ouvir aquele samba que tanto marcou a infância, a adolescência. Era gente levando os rebentos pra ver que beleza é sair no Bola Preta. Era gente a fim de diversão. Era gente atrás de azaração. Era gente liberando num dia o que reprime nos outros 364, se é que vocês me entendem. Tem gente de todos os estilos na rua do Bola Preta.

Cada um tem seu estilo. Eu fui bem discreto, apenas destoando da sobriedade com meu companheiro chapéu em formato de pelota. E foram muitos (e muitas, provando que futebol não é só coisa de macho) que me acompanharam, só mudando o modelo e as cores. Teve quem apostou num moicano estiloso-espalhafatoso, todo colorido e empetecado. Teve quem preferiu fazer no cabeleireiro e só aplicar as tintas. As mulheres, essas tinham que caprichar. Teve anjinha, enfermeira grávida, odalisca, melindrosa, diabinha. As novinhas, as mamães, as vovós, as nenezinhas. A menininha nos ombros do papai assustada com toda a barulheira. O moleque batucando na cabeça do papai, já treinando pra ano que vem.

Fora a selva que atravessou as calçadas. Docinho, enfermeira? Olha mais de perto que esse bicho tem tromba. Depois passam pela minha frente inúmeras “anjinhas”, “fadas-madrinhas”. De longe, vem o que parece ser uma daquelas dançarinas velhas de guerra que estão hoje na decadência. Um minuto depois, parece a Vera Verão velha depois de vários anos cheirando cocaína – um quadro tenebroso, podem acreditar. E ainda tem uma Carlitos estilosa acompanho de uma Feiticeira. É o jogo do vira-virou. Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão...será que ele é? Será que ele é? Mas tudo só na pilhéria, pessoal. Afinal, o que importa é a diversão. E isso sobrou na avenida. Literalmente.

E quando fui me despedindo da Rua do Bola Preta, vi que a festa não tinha acabado para um monte de gente. Espero que daqui a um ano eu ainda esteja festejando na hora em que eu saí.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

É a hora da folia, é a hora do batuque

Bem pessoas, chegou a hora.
Meu amigo Crispin já adiantou no "Aquarela de Fatos", agora sou eu.

Eu vou pegar leve, mas quero curtir também esse carnaval.
No domingo fiz a primeira crônica dessas aventuras pelos blocos do Rio e espero fazer mais.
O que importa é curtir bastante, brincar, zoar com os amigos, mas tudo com muita segurança. É uma festa legal demais pra ter confusão. Além disso, vamos tomar muita água por que o calor não vai dar trégua, filtro solar pra não ficar com cancer, camisinha na bolsa(pra eles e elas).

De resto, é só armar o churrasco, sair nos blocos, ver os desfiles, fazer a festa.
O ano começa depois do carnaval, então façamos a festa no finzinho das férias!

"Me leva que eu vou, sonho meu...atrás do Bola Preta só não vai quem já morreu..."

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Aquarela Carioca de Domingo

Tudo indicava mais um domingo sem graça.

Com certeza eu iria acordar bem tarde, assistir muita televisão (filmes, futebol e etc...) e com certeza passaria a noite com a cara no computador, como eu estou fazendo agora. Mas não foi bem assim que o dia se desenrolou...

Talvez um samba-enredo possa me ajudar a explicar melhor. Dá pra percebeu que eu já estou em clima de carnaval...

“Vem amor/Vem à janela ver o sol nascer/Na sutileza do amanhecer/Um lindo dia se anuncia”

É, o domingo se mostrou bem bonito desde o momento em que acordei. Quando saí de casa, pude ter uma visão melhor do dia lindo que estava nascendo. O sol iluminava a rua, que de algum modo parecia dourada. O céu nunca esteve tão limpo e azul. E mesmo com o tempo quente, estava no ar a certeza de que o domingo seria daqueles. Quem nunca desejou que o domingo fosse perfeito a ponto de suplantar os outros dias da semana? Por que domingo é o dia de descanso, de lazer, de jogar aquela pelada que não dá durante a semana, de fazer aquele tricô, de ir à praia...

“Veja o despertar da natureza/Olha amor quanta beleza/O domingo é de alegria”
Enquanto eu estava no ônibus, saindo do meu querido subúrbio de Zona Oeste indo pra Zona Sul, eu ficava olhando os flashes pela janela. Como nunca tinha cruzado sozinho o Centro da Cidade, desconhecia a paisagem depois da Presidente Vargas. Pude ver o Cristo Redentor erguido, cortando o azul do céu, o bondinho do Pão de Açúcar subindo no ar, o Aterro do Flamengo e sua orla, as ruas repletas de cariocas indo para o trabalho e a grande maioria metida nos seus trajes de banho e carregando cadeiras, isopores. Os ambulantes levando cervejas, adereços de carnaval, filtros solares, biquínis – nunca pensei que veria isso sendo vendido na praia – camarões no espeto, queijo coalho, refrigerantes, cervejas, doces, água de coco geladinha, água sem gás, com gás. Tinha tudo pro gosto de cada um. E tudo isso rodeado pela beleza de uma praia carioca.

“No Rio colorido pelo Sol/As morenas na praia/Que gingam no samba/E no meu futebol”

Ipanema é linda demais. Me lembrei de uma vez em que eu vi a praia diante de um fim-de –tarde maravilhoso, faz uns nove anos, eu acho. Assim que eu cheguei lá, veio essa imagem na cabeça: a orla, as pessoas na praia, o céu amarelado, quase laranja, eu arrastando os tênis pela areia. Agora, eu iria entrar na praia mesmo. Encontrei a turma, fiquei um pouco na areia, mas não queria sair da água. Alias, ninguém queria. O Rio estava colorido e o sol proporcionava o maior brilho. As águas de Ipanema se levantavam saudando todos que nela mergulhavam com marolas, ora fracas, ora fortes. As areias se desmanchavam com as ondas que as lambiam. E tinham as beldades que faziam a festa dos olhares de quem passava pela orla ou quem estava na areia. São algumas paixões dos cariocas: samba, praia, morenas e o futebol, representado no Estadual.

“Veleiros que passeiam pelo mar/ E as pipas vão bailando pelo ar/E no cenário de tão lindo matiz/O carioca segue o domingo feliz”

Dentro d’água, todos viram os veleiros passeando em direção à Barra. Cada um representando um país diferente. Acho que era uma regata, não sei. Só sei que eles atraíram a atenção de quem estava curtindo o dia. Enquanto isso, tantos outros faziam os papagaios cruzarem o céu num festival de cores. Fosse os moleques e seus pais, tios, irmãos que estivessem nas ruas, lajes e morros, cada um representa algo diferente. O time do coração, uma mensagem de paz, um gosto musical, um grito, um escândalo. Todos adoram o domingo assim, de bobeira. Eu, pelo menos, adoro um domingo assim. Com aquele almocinho de domingo que só minha mãe sabe fazer, de quebra um sorvete de graviola pra deixar tudo bonito (Embora eu goste mesmo de um churrasco daqueles!!!). Mas não posso reclamar, o domingo com os amigos estava muito bom. Curtindo o sol de Ipanema, o mar, os amigos e um algo mais logo depois.

Acabei curtindo meu primeiro bloco de carnaval. No currículo, só tinha as duas vezes que eu fui ao Bola Preta, mas esse foi pra valer. Tudo bem que a Preta Gil se esforça, mas ela não tem aquela força pra puxar bloco. Ainda assim dei muitas risadas: por exemplo, ela tem uma auto-estima lá em cima: ela se acha bem bonita. B-U-C-E-T-A. Bonitaaaaaaaaaaaaaaa! Como nem tudo são rosas, acabei tendo um pequeno incidente: tive minha carteira “sorrateiramente surrupiada”. Quando o cronista que vos fala deu por falta desta, já era tarde. Mas o bom já tinha acabado há tempos, logo quando a gente deu o último mergulho nas águas quase noturnas de Ipanema.

“Vai o sol e a lua traz no manto/Novas cores, mais encanto/A noite é maravilhosa/E o povo na boate ou gafieira/Esquece da segunda-feira/Nesta cidade formosa”

E na volta, vim admirando outro espetáculo. O matiz do dia deu lugar ao crepúsculo, sem que a alegria do domingo morresse. O encanto da noite é qualquer coisa de lindo. Ainda mais vendo o Rio, bonito do jeito que é, anoitecendo. Desde a orla ate o subúrbio o anoitecer é especial. O anoitecer de domingo mais ainda. Mas o de hoje, nem falo. Deixo para a imaginação de cada um! Olhando pra tudo isso, não dá pra acreditar que amanhã é segunda-feira. Como eu ainda não vou trabalhar...

“Há os que vão pra mata/Pra cachoeira ou pro mar/ Mas eu que sou do samba/Vou pro terreiro sambar”

Como eu não fui pro terreiro, sobrou escrever ao som de um samba. E nada melhor do que ouvir “Domingo”, da União da Ilha de 1977. Só ele consegue representar o que foi esse singelo domingo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Recíproca

Talvez em meus sonhos mais longínquos ou em meus suspiros mais profundos você ainda esteja presente.

Foram tantos dias sem querer acordar, noites fugindo do sono. Quantas vezes o teu nome quase me escapou da boca, vi sua figura nos meus devaneios mais secretos, sonhei em beijar seu corpo de mulher. Tento definir em palavras esse extase, dar um significado a esse frisson e nunca consigo. Suando frio, ia sempre a janela e olhava pra Lua, na esperança dela dizer tudo o que a minha boca não conseguia.

Mas nunca recebi de ti o que eu mais queria. Mesmo quando eu te revelei tudo e tirei o peso das minhas costas não ganhei o que poderia me fazer mais feliz. Ou triste.

Hoje eu entendo um pouco mais. Talvez você não quisesse me magoar. Talvez você quisesse, com a negativa. Não decifrei seu riso meio sem graça, meio sarcástico.

E embora toda essa paixão tenha ido embora, às vezes me pego pensando o que seria de mim com a sua recíproca.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Modernidade

Modernidade
Ah, atualidade nefasta
Aqui me tens em parcial
A outra parte foi em viagem
E não tem data de regresso
Cansei dos lamentos freqüentes
Das injeções de alegria, em vão
Estou farto de me transformar
Metamorfosear em personagem
De mim mesmo, faceta
Máscara confeccionada
Intransponível
Sem versos vivos
Ares de poesia
Ficção e realidade
Confundem-se ao mesmo tempo
Mundo e ultra -mundo de mãos dadas
Ignoro o que me conheço
Despisto aquilo que é desconhecido
Cresço e amadureço

Regrido e me trato com despreço
É sempre cedo, já foi tarde
Acessos de lamento por toda a parte
Sabe-se lá o que eu penso ou o que sinto
Emaranhado complexo, labirinto de sensações
Transtornado, ao reverso
Modernidade, tente me explicar...
Eu, tão maniqueísta e fantoche, não sei...

(Danilo Julião - 21-10-2008)

Tempestade

As carruagens da aurora e do crepúsculo se chocam contra o céu
Os ponteiros correm em disparada como se quisessem chegar à linha de chegada
Dá-se o nó na garganta do poeta, falta-lhe a coragem
Perde-se lhe o fôlego, voam os sentidos, despe-se em um animal;
A pele alva de lua brilha no crepúsculo, delicada
Rosas úmidas pedem com a sede de beber
Protuberâncias estremecem ao vento da noite
Incendeia-se por dentro, fogo incontrolável
A pele pede o algo a mais; a dor a mais; o céu a mais
A pele ruça e calejada de terra permanece na aurora
Mãos tortas que fazem versos e procuram o toque
Enrijece, à procura do esconderijo perdido
E ele o acha onde aurora e crepúsculo se juntam
Sol e lua se encaixam na figura de um eclipse
Céu e mar se fundem numa só cor
Almas que gozam um ‘petit mort’.
(Danilo Julião - 14/10/2008)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Gol Anulado

Composição: João Bosco / Aldir Blanc

Quando você gritou mengo
no segundo gol do Zico
tirei sem pensar o cinto
e bati até cansar.
Três anos vivendo juntos
e eu sempre disse contente:
minha preta é uma rainha
porque não teme o batente,
se garante na cozinha
e ainda é Vasco doente.
Daquele gol até hoje
o meu rádio está desligado
como se irradiasse
o silêncio do amor terminado.
Eu aprendi que a alegria
de quem está apaixonado
é como a falsa euforia
de um gol anulado


(Música na voz de Elis Regina)

Fim de jogo

Domingo de tarde. Sol das cinco a pino. Tempo bom. Perfeito pra jogar. Gramado em bom estado. Arquibancadas em festa. Bandeiras no ar. Sem risco de briga. Nem de confusão. Clássico dos mais antigos. Rubro-negro de um lado. Rubro de outro. História e nostalgia no ar.

O pai leva o filho pro estádio pela primeira vez na vida. O moleque não deve ter mais de cinco anos e vai ver seu time do coração pela primeira vez num estádio. E não é qualquer estádio, é o Maior do Mundo. Logo que eles chegam, a torcida saúda com uma festa maravilhosa, os fogos colorem os quatro cantos de arquibancadas, é uma festa sem fim. O moleque vai à loucura, entra naquele frisson. Balança a camisa que seu pai comprou e depois pede pro pai colocá-lo nos seus ombros pra ver o entorno do estádio. Dentro de campo, o Flamengo não faz por menos. Ele pode ter saído atrás no placar, perdendo de 1 x 0 . Mas logo empatou. E depois virou. Pai e filho foram à felicidade absoluta naquele dia: o Flamengo era hexacampeão. O pai via seu sexto título, sendo que o primeiro ele viu no colo do seu pai – que àquela altura não estava mais junto. Ele pode proporcionar essa alegria ao filho. Mas a alegria só duraria pouco. No dia seguinte, a sua esposa chorou arrasada ao saber da morte de seu marido e filho, quando estes saíam do Maracanã. Tudo causado por uma briga de torcidas rivais. Foi o Flamengo, mas poderia ter sido o Vasco, o Palmeiras, o Botafogo. Infelizmente, essa é uma história bem recorrente nos nossos dias. O futebol deixou de ser espetáculo para virar guerra.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Desgosto

Desgosto é pensar que nós, seres dotados de razão, damos mais valor a tudo o que tem de ruim na vida e esquecer o que de fato vale a pena. Desgosto é ver que a gente gasta o nosso tempo remoendo mágoas e feridas que já deviam ter adormecido. Desgosto é saber que, mesmo levando tantas porradas da vida, a gente teima em seguir o caminho errado. Desgosto é poder dar um rumo diferente à nossa vida e não fazê-lo por questões tão fúteis. Desgosto é assistir o noticiário todo dia e ver as mesmas tragédias, que viraram banalidades. Desgosto é não ter esperança para fazer o mundo de outra forma. Desgosto é ter tantos motivo pra ter desgosto e não fazer absolutamente nada quanto a isso.

Renascer

Renasço de águas plácidas e profundas
Filhas da claridade soturna da noite dos mares
Enquanto germino do meu berço-túmulo
Desperto da fúria que de mim se apossou feito furacão
E varreu de mim as lembranças da guerra íntima
Admiro a fronte límpida no espelho alvo
De longe, não lembra a carranca medonha
Que tanto tempo sustentei dentro da alma
Envolvido em desilusões e fracassos
Do tamanho de fortalezas de ferro

Quem adormeceu dentro de um mar gelado
Não se compara com aquele que despertou
Memórias ainda navegam errando pela noite
Sonhos náufragos afundam e atingem o fundo dos oceanos
Eis aonde eu quero que eles pereçam sem volta.
Sou como o remanso que surge do cansaço
Aquele que tanto lutou contra os sentimentos
Caminho de volta ao mundo,
Sem certeza ou esperança
Apenas o infinito que tanto me apraz.

(Danilo Julião – 19/07/2009)

01 de fevereiro

E a segunda feira foi igual às outras.

Exceto por alguns fatos.

Os flamenguistas estavam em polvorosa. Afinal, o Flamengo virou o jogo no Fla-Flu e fez o pessoal vibrar e falar que a força do Hexa está melhor do que nunca. Embora tenha tido a confusão com o Pet. Fica complicado de falar alguma coisa sobre o assunto. Será que a estrela subiu à cabeça e pode custar a cabeça do sérvio? Só o tempo dirá.

Amanhã saem os indicados para o Oscar. Nenhum brasileiro na briga. É incrível como o nosso cinema ainda não chega a ponto de disputar de frente com os outros países. Mas como querer isso num país onde artista leva fama de vagabundo? Frase clichê, mas resume a realidade social aqui.

O ENEM vem dando o que falar. Os resultados saíram, mas a correria só aumenta. É a corrida do ouro por uma vaga numa universidade pública. No meu ano de vestibular, meu resultado do ENEM saiu depois do esperado e isso me prejudicou bastante. O irônico é que, mesmo com os avanços tecnológicos, a confusão continua. Parece o sistema da faculdade.

E entramos em fevereiro, mês do carnaval. Eu ainda não sei pra qual bloco eu vou. Ou quais. Não sei nem o que fazer da minha vida. Vou deixar pra Iemanjá, já que amanhã é o dia dela...

domingo, 31 de janeiro de 2010

Ópera da Cidade

Pelas ruas, esquinas e ladeiras
Luzes despertam antes do poente
É o crepúsculo cruel e misterioso
Que revela as chagas e o dia acoberta
Faróis vermelhos se destacam do alto de viadutos
Buzinas gritam loucas numa ópera raivosa
Carros se enfileiram numa linha errada e errante
Mil destinos regem cada uma dessas almas
Que apertam os cintos ou cortam os pulsos
São as vozes da impaciência, da pressa
De chegar ao horizonte, tão longe, tão escuro
Céu perverso, almas mais ainda
Maldizendo o que tem mais que elas
Toda a confusão nas avenidas abertas e paradas ao léu...
Um mar cuja música contagia e enfurece
E a famigerada turbulência que sempre aparece na janela
Derrama-se em notas desconcertantes num palco de buracos...

(Danilo Julião – 11/06/2009)

Juízo final

Chega a ser difícil olhar pro mundo ao meu redor. Eu sei, eu sinto, a tempestade se anuncia. Hoje à noite todos os meus medos vão se libertar do baú e vão me perseguir numa cavalaria de fantasmas. Os portões dos céus estarão escancarados deixando correr pingos grosso que marcarão o chão como uma adaga perfurando a pele. Os “Quatro Cavaleiros” estão soltos pelo ar, todos juntos no meio dessa tormenta. Não gosto de tormentas. Prefiro a calma. As luzes se apagaram, a ventania está lá fora. Os fantasmas ganham luz, podem ser vistos a qualquer momento. Não sei o que fazer, tenho medo de mexer com tais entidades. Perco a calma a cada raio que cruza os céus e fuzila a terra. Logo me lembro do cadáver que eu deixei estirado no chão, o instrumento que cortou o fio de sua vida. Esqueço o porquê de tê-lo matado, esqueço o fio de desentendimento. O meu medo se torna supremo e não dá espaço para qualquer outro sentimento. Me sinto um invisível, pequeno e miserável mosquito no meio dessa orquestra sinfônica de arranhar os ouvidos. Quem vai saber o que acontece comigo? Quem vai saber que eu o matei? O assassinato ficará impune. A lei dos homens não há de me pegar. Não há. Meu Deus, o raio atingiu a casa. Toda escuridão se dissipou. Agora as chamas consomem tudo. Pule no fogo, pule no fogo, dizem os fantasmas. Eu não sou maluco, vou pular pra fora do fogo. O salto pode não ter sido o mais perfeito, mas fugi das chamas. Ou pelo menos, achei que tinha fugido. Ainda estava no meio das chamas, eu estava preso no meio das chamas. Era o fim, eu sabia. Os fantasmas estavam rindo. Não tinha mais jeito.


(Texto influenciado pelo álbum "Kill'em All", do Metallica. Nem um pouco autobiográfico.)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Carmina mortis

Com um céu grená sobre minha cabeça
E as sombras da tarde-noite ao meu redor
Caminho sobre pedras, palavras e besteiras
Num rumo torto, que a terra fria guia
Seguro meu corpo com todas as forças
Afago as dores e feridas, as chagas sem medida
Iludido coração que caiu em todos os buracos possíveis
Chego, sem perceber, a um jardim vazio
Cuja vida se esvaiu com as folhas do outono
E o que restou foi um tapete de folhas velhas
Talvez uma vida velha que tenha desaparecido
Espaço aberto, as cores esfriando em segundos
Tão dolorosos como o parto de um plano quase impossível
O Cansaço me vence ou eu o vença ao chegar aqui?
Aqui, onde almas dormem ao relento e esbravejam no sono eterno
Orquestrando um coro contra o novo mundo onde se encontram
Elas se rebelam, mas esquecem que se entregaram tão fácil
Quando havia as cores, queriam as cinzas e as tem,
Embora nada fosse do que elas queriam
Esse lugar é demais para mim, como eu cheguei aqui, não sei dizer...
(Ou talvez eu saiba, mas não seja válido dizer nas linhas)
Ainda caminho, apenas sobre as pedras, rochas, penhas tímidas
Enquanto descubro as cores da noite, tapete estrelado
Donde um refletor me mostra uma nova aquarela
Que está além dos olhos, além dos pensamentos.


(Danilo Julião – 18/06/2009)

Contra o ócio dos tempos

Pensei em todo o tempo em que eu desperdicei tentando tirar alguma idéia e transpor para o papel e na frustração que cada insucesso me causou. Às vezes, não se trata de falta de inspiração ou priorizar outras coisas que não o expressar das palavras. É que não é momento certo de exercitar essa habilidade tão única e tão preciosa. Mas existe ‘momento certo’ para escrever, colocar o que você está sentindo nas linhas de uma folha? Não mesmo. E por que, a cada falha, o escritor se entrega à desistência ou à outra tarefa e não envereda pelo caminho guiado pela chama da persistência? Há tanto o que dizer, mas o mundo cala. Só resta o abrigo do papel, que pode ir ao conhecimento das pessoas ou não, ser limitado a um pequeno universo. Geralmente prefere-se o universo, onde se sabe que a compreensão será total. O mundo real está mais preocupado em contas, luxos e pequenos caprichos e prefere essas futilidades a ler e criar suas próprias idéias. E muitas vezes eu sinto esse peso acima da minha cabeça e deixo de lado o que aquece meu cérebro e não me deixa morrer de tédio e ócio. Aos escritores é dado o papel daqueles que só observam a vida. Não é bem assim, eles representam a vida do jeito que enxergam, por mais único ou deturpado que seja ou pareça. Claro, nem tudo pode ser chamado ‘expressão de idéias’, mas a sociedade – ou melhor, todos nós relegamos toda essa riqueza que é o pensar, o ilustrar da vida a segundo plano e dita as tendências do que é mais importante, mais válido. Por isso, encaro essa contracorrente como um incentivo para não parar de escrever. Por saber o que acontece caso eu abandone essa luta tão íntima e ao mesmo tempo tão pública.

Danilo Julião – 09/05/2009

No meio de uma rua de subúrbio

Era uma vez uma rua no meio de onde eu nem sei. O céu não estava azul, mas se sentia o vapor do mormaço queimando na pele. O chão não era de terra batida, mas me lembrava a infância que já passou. A fumaça branca que saía da casa indicava movimento e reunião. No outro lado da rua, três mesinhas de bar. Risos em toda parte. Era uma turma reunida, entre conversas, cervejas e refrigerantes. O tempo que passou vinha na memória com as situações, os micos, tudo. O coração do subúrbio era palco do encontro. O casal trocando beijos, os amigos tirando sarro, aquele cara da ponta cantando a mina da outra ponta. O samba bem vindo enchendo o ambiente. A vizinha mocréia e faladeira reclamando da festinha, sempre tem que ter alguém pra roubar a cena da pior forma. “Eu seguro o pagode e não deixar”, “podemos sorrir nada mais nos impede”, “Derramamos pela nossa voz cantando a alegria de não estarmos sós”. A brasa no ponto, o calor abrasador, o fervo, o batuque, o fim do mundo, tudo num espaço de horas. Era um momento feliz de se guardar.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Crônica de ano-novo

Eram quase meia-noite, 31 de dezembro de 2009.

Eu tinha parado para pensar em tudo o que tinha acontecido naquele ano que estava próximo do fim. Não tinha pouca coisa. Foram pequenas aventuras, grandes descobertas. De alucinações a alegrias até tristezas e decepções. Aquele cara que tinha começado o ano estava longe de ser aquele que estava ali no quintal, olhando pro céu, segurando uma moeda de um real, o único real que tinha sobrado dos últimos 365 dias. O único resquício frio que eu carregava com apenas dois dedos. Eu olhava o céu na esperança de que o ano terminasse. Não por que o ano que tinha passado fora duro demais comigo, mas por que eu sabia que um ciclo novo deveria começar. Não havia cicatriz no rosto, ferimentos: eles estavam debaixo da minha epiderme. Que tal deixar a poesia de lado e enxergar com lógica o que vinha pela frente? Não consigo. Faltam dois minutos pra meia-noite. Se eu o fizer, não serei mais eu. Viver sem poesia é como viver sem ar, não importa se é em verso ou prosa. Eu já tinha abandonado o ato de escrever tempo demais. Precisava daquilo. E como faltava um minuto e meio para 2010, não tinha mais como fazê-lo naquele momento. Um minuto pra meia noite. Bom, não tem mais o que dizer ou esperar. O ano vai virar, os textos podem esperar. Até lá, resta apenas os olhos no céu, esperando os fogos explodirem. Virou o ano, agora eu não quero saber de mais nada.

A beleza dos jornais e a das poesias

Eu bem sei que pensar na vida como uma desgraça sem fim não ajuda em nada. Como também pensar na vida como um desfile de samba que vai até a manhã não funciona. Então, o que vale a pena? Equilibrar as duas coisas?

Olho os jornais e só vejo tragédia, o que chamam de mundo real, cruel, frio e calculista.

As músicas e poesias cantam o que os jornais dizem, então por que elas não são tão levadas a sério? Por serem escritas em versos brilhantes ao invés da prosa fria?

Não, não sou inimigo da prosa. Sou inimigo daquela prosa que tira o brilho intenso da vida. Que a mostra sem emoção, sem sentimento. Geralmente, quando eu vejo muitos textos de jornal, tenho a impressão de estar preso no meio de um cenário cinzento e frio.

O que nos chama a atenção é o grotesco e o hediondo. Esse é o nosso veneno que vem diariamente impresso ou digitalizado. São os crimes pueris, as corrupções, as mazelas, as lepras que escondemos com botox e colágeno. Já pararam pra pensar que a gente prefere a leitura de um “Expresso” de manhã em lugar de ver o sol nascer no horizonte que recorta a serra? Preferimos o silêncio na sala ao ver o jornal do que ver a família reunida num dos raros momentos do dia. Às vezes, descartamos até a companhia dos filhos pra assistir as notícias com sossego. E enquanto isso, o que vale a pena fica de lado.

Já sei, tem quem vai me chamar de vagabundo. Poeta é sinônimo de vagabundo.

O que vale é ter um emprego, um vale alimentação, um celular da moda.

Eu prefiro ouvir um samba das antigas e sair cantando por aí.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Inocência nos tempos de escuridão

Quando o jogo acabou, eu mal podia acreditar.
Naquele instante, eu só conseguia olhar pra frente. Os olhos incrédulos, a boca sem ter o que falar, as mãos trêmulas de raiva. Em frente a mim, um gramado castigado pelas botinadas. Do meu lado, outros tantos botafoguenses tão ou mais cabisbaixos que eu. Antes, um louco qualquer incendiou a camisa do Botafogo quase do meu lado. Não sei se choro de tristeza ou de raiva. Não sei se culpo a diretoria ou a mim próprio por tirar leite de pedra, nutrir esperanças de onde não tem. É quando eu vejo, no meio do estádio vazio, um menino qualquer. Não sei quem é, quantos anos tem, de onde vem. Mas ele está lá, balançando sua bandeira do Botafogo. O Botafogo perdeu, foi massacrado em campo e ele balança sua bandeira com uma alegria que não condiz com o momento.
Um dia ainda vou entender o gesto dele. Se houver algo para entender.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Papo de novela

- Amor, vem cá. Quero te mostrar uma coisa.
- Benhê, pode ser depois? Tá na hora da novela...
- Poxa, mô...todo dia eu te chamo pra jantar comigo na mesa e você quer assistir a novela.
- Ah, querido. Hoje é especial.
- Sei...você fala isso todo santo dia...
- Vem pra cá, assistir comigo...
- Tá bom...
(Dez minutos mais tarde)
- Viu só? Entendeu por que eu não podia perder a novela?
- Na verdade, não.
- O Jorge e o Miguel brigaram por causa da Luciana. Saiu até porrada, foi tenso!
- O cara é um ótimo ator e mandou bem na cena. Nada demais.
- Nada demais? Foi uma briga daquelas, todo mundo ficou esperando por essa cena! No trabalho só falavam disso.
- É. As pessoas se juntam na frente da TV pra ver os dois irmãos brigando por causa de mulher. Pra que?
- Entretenimento, chuchu.
- Bom, se me permite dizer, não vejo graça. A vida é curta demais pra eu ficar fomentando confusões direta ou indiretamente.
- Você está exagerando, benhê. Tá sendo melodramático.
- Pode até ser. Mas nem tem motivo. As pessoas só gostam de ver o que ruim, trágico ou acaba em confusão. Não dá pra entender, simplesmente não dá.

Túmulo aquático

Das rusgas se fez meu pranto silencioso
Como ondas do mar numa noite escura
A dor desse lamento ainda perdura
Dividindo espaço com um veneno furioso
Leito derradeiro e inóspito, rodeado de corais
Espumoso, onde o sol e a lua dormem sorrateiros
Eis onde durmo coberto por uma grande cortina azul e triste
Ausente de pensamentos e de paixões, loucuras bobas
Apenas um pequeno cristal no meio de um coração de safira
Que em silêncio repousa e compartilha do meu sono profundo
Observa, sem entender, o porquê de tantos maldizeres
Que a serenidade cala, após árduas tentativas
Velas ao vento passam a lado do meu corpo estirado
Contemplam minha penumbra branda
Nada sou, nada fui, nada serei
Provei do meu próprio elixir mortal
E aqui permaneço
Ó, tumulo aquático, leva de mim todo o pesar
Para quando eu voltar, ah! quando eu voltar
Do sono quase eterno
Nutrir a pureza de um amor terno.

(Danilo Julião -16/06/2009)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Duas caras

- A sexta tá morta, não acha?
- Eu já vi sextas melhores. Mas não quero ir pra lá de novo.
- Por que não? É garantia de algum divertimento.
- Eu to cansado de ir por mangue toda sexta. Acontecem as mesmas coisas lá.
- Mas tem mulher bonita e isso vale a pena. Ou não?
- Vale sim, pow. Tu sabe que vale muito. Mas hoje não. Quero ficar no meu canto curtindo o tédio.
- Ou você não quer ir por causa da Luciana?
- O que a Luciana tem a ver com isso? Por que ela foi entrar na conversa?
- Você sabe do que eu to falando. Eu vi vocês juntos semana passada.
- O que tem isso?
- Cara, você sabe que eu gosto dela.
- E só por que eu tava falando com ela significa que eu to a fim?
- Joca, dá pra ver na sua cara quando você fala com ela...por que a minha garota?
- Beto, duas coisas: um, ela não é sua garota; dois, eu não quero ela.
- Claro que quer, você tá querendo me enganar. Muitos vieram me falar que você é caidinho por ela.
- Quem? Quem veio falar isso pra você?
- Muita gente. Ah, não vou me preocupar com nomes. É melhor você dizer de uma vez e parar de ficar negando o que está claro!
- (João fica sem acreditar no que ouve) O que está claro? Você pirou de vez? Beto, nós somos amigos desde a oitava série. Acha mesmo que eu colocaria a nossa amizade a perder por causa de uma garota?
- Como a Luciana, acho sim.
- Eu não acredito que to ouvindo isso...
- Vai falar ou não?
- NÃO! Não vou falar do que eu não faço! Você está fora de si, achando que eu to em cima dela.
- Eu sei que é verdade! Fala logo ou...
- Ou você vai quebrar a minha cara? Hein? QUEBRA ENTÃO, PORRA! Mesmo assim você não vai se mancar que ela não gosta de você!!
- O QUE?
- Isso que você ouviu. Ela não gosta de você!
- Não dá pra acreditar!
- No que?
- Você tá colocando ela contra mim, não é? Só pra você pegá-la...
- Não acredito... vai começar tudo de novo?? Eu sempre achei que você era paranóico, mas agora estou confirmando.
- Por mim, você acha o que quiser... mas dá pra ver segundas intenções nos seus atos!!
- Segundas intenções? Você tá louco...eu posso ter a mulher que eu quero, é só eu chegar nela e tá feito. Ao contrário de você, que fica nutrindo essa obsessão pela Luciana. Agora eu entendo por que ela não tá a fim de você!
-(Beto, completamente alterado) Do que você tá falando? Ela nem sabe quem você é...você só começou a falar com ela por que eu pedi pra você ficar em cima dela, sondando a situação pra mim!
- CHEGA! Você tá distorcendo tudo! Eu já falava com ela antes de te conhecer. VOCÊ é que só começou a falar comigo por causa dela!
- Eu nunca devia ter confiado a você essa tarefa! Aliás, não devia ter confiado em você nunca! Eu devia ter chegado nela sozinho. Não tinha que ter me aproximado de você.
- É isso que você quer dizer?
- É. Isso mesmo. Já estava na hora de eu te dizer isso. Acho que só agora você percebeu.
- (João em estado de choque) E você consegue me dizer tudo isso com frieza?
- Não posso fazer nada.
- Mas eu posso. Acabou, cara. Eu não quero mais olhar na sua cara. E tem mais: você nunca vai ficar com a Luciana e sabe por quê? Por que ela te odeia, te acha um idiota de marca maior. Ela pediu pra eu te falar isso. E mais, ela já tem namorado. E sou eu. SOU EU! Você achou que estava me enganando esse tempo todo, mas errou. Errou feio.
- Você namorando ela? Como é possível? Você nunca me disse nada. Todo esse tempo eu achava que vocês eram apenas amigos... Não, você está brincando. Você não seria tão esperto assim...
- Você diz isso por que me acha um otário!
- Acho sim. Um otário egoísta e sujo.
- E você é um idiota total. Eu estou namorando sim. Você não vai tê-la tão cedo!
- Sai daqui! Sai daqui, agora! Eu nunca mais quero te ver, João!
- Adeus, Beto. Até nunca mais.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Esboço inicial

Escrever pra mim é um desafio e também uma paixão. Lembro das primeiros textos que eu escrevi, quando eu era um pouco mais novo. Naquela época, eu carregava meu ímpeto de iniciante que queria alcançar a perfeição logo e assim ter certa notoriedade com algumas crônicas. Meu primeiro contato com elas tinha sido com um livro do Nélson Rodrigues, “A Pátria em Chuteiras”. Eu tinha meus 18 anos e fiquei louco com aquelas crônicas, que pareciam ter um brilho e um colorido próprio. Ao lê-las eu me sentia sentado num estádio pequeno, ou melhor, um alçapão. E eu não tinha torcida definida, torcia por algo maior que um time de futebol. Cada letra representava um drible, uma furada de bola, um gol, uma festa da torcida. Eu tinha me teletransportado para um universo mágico, cujas possibilidades eram maiores do que eu imaginava. A partir daquele momento, eu queria escrever crônicas de futebol, só de futebol. Depois comecei a me interessar por outros assuntos, mas o futebol nunca se afastou de mim. Mas passou o tempo, eu fui ficando mais velho, fazendo mais coisas e assim comecei a perder as oportunidades de ver um jogo e escrever sobre ele. Alguns jogos com um ambiente propício pra explorar a imaginação e traçar contornos que nem mesmo eu sei. Logo eu percebi um dos motivos que explicavam o porquê de eu não conseguir escrever: só podemos escrever sobre o que a gente sente de verdade, o que a gente sabe, no fundo do nosso coração. E num determinado momento, não sei explicar quando, eu não conseguia passar esse sentimento aos meus olhos. Como se eu tivesse perdido minha essência. Como se eu escrevesse com medo do que as pessoas iam pensar de mim. Com isso foram tantas as chances que eu fui perdendo ao longo do caminho. Mas isso são águas passadas e como diz o ditado: elas nunca movem moinhos. Mais vale escrever os textos como se fossem partidas de futebol que deixá-los para depois. Se for assim, que assim seja. Nem que eu tenha de fazer jus ao nome desse blog e realizar cada texto num tranco literário.