É carnaval, tempo de folia.
Já fazia tempo desde a última vez em que eu tinha visto o Bola Preta atravessar a Rio Branco. Daquela vez, meu pai tinha me levado e eu não queria outra vida. Por mim, todo carnaval atravessava a rua atrás do bloco. E como diz aquele o samba: “Atrás do bloco (digo, da Verde-e-Rosa) só não vai quem já morreu. Era o Carnaval de 2007. No ano seguinte, veio uma gripe fora de hora que me cortou do bloco. Ano passado, eu estava milhares de quilômetros longe dali, de modo que eu fiquei de fora outra vez. E veio 2010, pra recuperar o esquenta do bloco.
Mas ao contrário dos outros anos, eu acabei ficando de fora do fervo. Pra quem não sabe, o fervo é onde a multidão fica espremida passando junto com o bloco, seguindo, cantando o samba (confesso que eu ainda tenho que comer muito samba-enredo pra fazer bonito nos blocos da vida, posso dizer que consigo cantar uns 10 de letra...o resto...). É pai levando o filhote ou a filhota nos ombros, é marido segurando mulher, é namorada indo com namorado, a vovó pulando com os netinhos, é o grupo de amigos fazendo um auê com a galera. E eu, sozinho, apreciando a paisagem como um legítimo flaneur de João do Rio. Que vem a ser um flaneur? Bem, como resumir numa Lina o que ele estendeu por parágrafos? É o cara que perambula por aí em busca de inspiração para a arte e reflete sobre ela. Expliquei bem? Não sei, mas pouco importa agora.
A novidade é que eu fui sozinho até lá. Não é do meu feitio fazê-lo, adoro aproveitar essas ocasiões acompanhado dos amigos. Por conta de outras razões, isso não ocorreu. Mas por um lado foi bom. Há males que vem pra bem, não é mesmo? Não fosse isso, eu não conseguiria observar as figuras que passaram Rio Branco, Praça Floriano, Rua da Carioca e mediações. Fico pensado como é que no Rio um bairro consegue se desmembrar em tantos sub-bairros; é uma coisa impressionante e absurda. Só pra vocês terem idéia: o Centro da Cidade tem sua complexa geografia Saúde, Santa Teresa, Glória, Lapa, Santo Cristo, Central, Candelária, pra não dizer os que eu ainda não conheço. Contar os pontos de referência na ponta dos dedos então, impossível: Praça Tiradentes, Ouvidor, Passos, Sete de Setembro, Igreja dos Capucinhos, Arcos da Lapa, Rio Branco, Presidente Vargas. É pra deixar qualquer um louco.
Mas voltando ao nosso ponto de encontro, lá estava eu. Um puta sol de quarenta graus, usando um chapéu de bola de futebol, olhando o vai-e-vem e o vem-e-vai do pessoal. Era gente saindo do fervo pra dar um descanso, tomar uma aguinha, uma cerva geladona ou no meu caso, um refrigerante estupidamente gelado (Coca, H2OH pra quem gosta de alternativas). Era gente que tinha perdido a hora e agora queria entrar no meio do fervo. Era gente querendo chegar perto do bloco pra ouvir aquele samba que tanto marcou a infância, a adolescência. Era gente levando os rebentos pra ver que beleza é sair no Bola Preta. Era gente a fim de diversão. Era gente atrás de azaração. Era gente liberando num dia o que reprime nos outros 364, se é que vocês me entendem. Tem gente de todos os estilos na rua do Bola Preta.
Cada um tem seu estilo. Eu fui bem discreto, apenas destoando da sobriedade com meu companheiro chapéu em formato de pelota. E foram muitos (e muitas, provando que futebol não é só coisa de macho) que me acompanharam, só mudando o modelo e as cores. Teve quem apostou num moicano estiloso-espalhafatoso, todo colorido e empetecado. Teve quem preferiu fazer no cabeleireiro e só aplicar as tintas. As mulheres, essas tinham que caprichar. Teve anjinha, enfermeira grávida, odalisca, melindrosa, diabinha. As novinhas, as mamães, as vovós, as nenezinhas. A menininha nos ombros do papai assustada com toda a barulheira. O moleque batucando na cabeça do papai, já treinando pra ano que vem.
Fora a selva que atravessou as calçadas. Docinho, enfermeira? Olha mais de perto que esse bicho tem tromba. Depois passam pela minha frente inúmeras “anjinhas”, “fadas-madrinhas”. De longe, vem o que parece ser uma daquelas dançarinas velhas de guerra que estão hoje na decadência. Um minuto depois, parece a Vera Verão velha depois de vários anos cheirando cocaína – um quadro tenebroso, podem acreditar. E ainda tem uma Carlitos estilosa acompanho de uma Feiticeira. É o jogo do vira-virou. Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão...será que ele é? Será que ele é? Mas tudo só na pilhéria, pessoal. Afinal, o que importa é a diversão. E isso sobrou na avenida. Literalmente.
E quando fui me despedindo da Rua do Bola Preta, vi que a festa não tinha acabado para um monte de gente. Espero que daqui a um ano eu ainda esteja festejando na hora em que eu saí.
Já fazia tempo desde a última vez em que eu tinha visto o Bola Preta atravessar a Rio Branco. Daquela vez, meu pai tinha me levado e eu não queria outra vida. Por mim, todo carnaval atravessava a rua atrás do bloco. E como diz aquele o samba: “Atrás do bloco (digo, da Verde-e-Rosa) só não vai quem já morreu. Era o Carnaval de 2007. No ano seguinte, veio uma gripe fora de hora que me cortou do bloco. Ano passado, eu estava milhares de quilômetros longe dali, de modo que eu fiquei de fora outra vez. E veio 2010, pra recuperar o esquenta do bloco.
Mas ao contrário dos outros anos, eu acabei ficando de fora do fervo. Pra quem não sabe, o fervo é onde a multidão fica espremida passando junto com o bloco, seguindo, cantando o samba (confesso que eu ainda tenho que comer muito samba-enredo pra fazer bonito nos blocos da vida, posso dizer que consigo cantar uns 10 de letra...o resto...). É pai levando o filhote ou a filhota nos ombros, é marido segurando mulher, é namorada indo com namorado, a vovó pulando com os netinhos, é o grupo de amigos fazendo um auê com a galera. E eu, sozinho, apreciando a paisagem como um legítimo flaneur de João do Rio. Que vem a ser um flaneur? Bem, como resumir numa Lina o que ele estendeu por parágrafos? É o cara que perambula por aí em busca de inspiração para a arte e reflete sobre ela. Expliquei bem? Não sei, mas pouco importa agora.
A novidade é que eu fui sozinho até lá. Não é do meu feitio fazê-lo, adoro aproveitar essas ocasiões acompanhado dos amigos. Por conta de outras razões, isso não ocorreu. Mas por um lado foi bom. Há males que vem pra bem, não é mesmo? Não fosse isso, eu não conseguiria observar as figuras que passaram Rio Branco, Praça Floriano, Rua da Carioca e mediações. Fico pensado como é que no Rio um bairro consegue se desmembrar em tantos sub-bairros; é uma coisa impressionante e absurda. Só pra vocês terem idéia: o Centro da Cidade tem sua complexa geografia Saúde, Santa Teresa, Glória, Lapa, Santo Cristo, Central, Candelária, pra não dizer os que eu ainda não conheço. Contar os pontos de referência na ponta dos dedos então, impossível: Praça Tiradentes, Ouvidor, Passos, Sete de Setembro, Igreja dos Capucinhos, Arcos da Lapa, Rio Branco, Presidente Vargas. É pra deixar qualquer um louco.
Mas voltando ao nosso ponto de encontro, lá estava eu. Um puta sol de quarenta graus, usando um chapéu de bola de futebol, olhando o vai-e-vem e o vem-e-vai do pessoal. Era gente saindo do fervo pra dar um descanso, tomar uma aguinha, uma cerva geladona ou no meu caso, um refrigerante estupidamente gelado (Coca, H2OH pra quem gosta de alternativas). Era gente que tinha perdido a hora e agora queria entrar no meio do fervo. Era gente querendo chegar perto do bloco pra ouvir aquele samba que tanto marcou a infância, a adolescência. Era gente levando os rebentos pra ver que beleza é sair no Bola Preta. Era gente a fim de diversão. Era gente atrás de azaração. Era gente liberando num dia o que reprime nos outros 364, se é que vocês me entendem. Tem gente de todos os estilos na rua do Bola Preta.
Cada um tem seu estilo. Eu fui bem discreto, apenas destoando da sobriedade com meu companheiro chapéu em formato de pelota. E foram muitos (e muitas, provando que futebol não é só coisa de macho) que me acompanharam, só mudando o modelo e as cores. Teve quem apostou num moicano estiloso-espalhafatoso, todo colorido e empetecado. Teve quem preferiu fazer no cabeleireiro e só aplicar as tintas. As mulheres, essas tinham que caprichar. Teve anjinha, enfermeira grávida, odalisca, melindrosa, diabinha. As novinhas, as mamães, as vovós, as nenezinhas. A menininha nos ombros do papai assustada com toda a barulheira. O moleque batucando na cabeça do papai, já treinando pra ano que vem.
Fora a selva que atravessou as calçadas. Docinho, enfermeira? Olha mais de perto que esse bicho tem tromba. Depois passam pela minha frente inúmeras “anjinhas”, “fadas-madrinhas”. De longe, vem o que parece ser uma daquelas dançarinas velhas de guerra que estão hoje na decadência. Um minuto depois, parece a Vera Verão velha depois de vários anos cheirando cocaína – um quadro tenebroso, podem acreditar. E ainda tem uma Carlitos estilosa acompanho de uma Feiticeira. É o jogo do vira-virou. Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão...será que ele é? Será que ele é? Mas tudo só na pilhéria, pessoal. Afinal, o que importa é a diversão. E isso sobrou na avenida. Literalmente.
E quando fui me despedindo da Rua do Bola Preta, vi que a festa não tinha acabado para um monte de gente. Espero que daqui a um ano eu ainda esteja festejando na hora em que eu saí.


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