sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sortes e azares, amores e amuletos: As cinzas no Maracanã "suplantam" o vermelho e preto


Sorte e azar são dois lados da mesma moeda, ou seja, uma coisa só. E ambas estiveram desfilando pelas relvas perfumadas do Maracanã, fazendo mágica com os olhos e o coração de quem estava torcendo. Fosse nas arquibancadas ou no sofá de casa, como eu, que brincadeira foi essa na semifinal de quarta. Todos sabem da rivalidade acirrada entre Botafogo e Flamengo e que eu defendo o meu Glorioso. No entanto, abusando da franqueza: eu entrei para ver o jogo sem esperança alguma. No que dependia de mim, não tinha chance da alguma coisa boa acontecer. Desde a decisão do Carioca de 2007 é que eu fico assim. Me lembro de tudo o que aconteceu nas duas tardes: o Botafogo abrindo dois a zero, o Júlio césar fazendo pênalti e sendo expulso, o Flamengo empatando, no outro domingo o Flamengo saindo na frente, o Botafogo virando o placar, o Flamengo empatando de novo, o Dodô quase fazendo o terceiro gol, num impedimento estranho e sendo expulso e enfim, aquela loteria chamada pênaltis.

Os primeiros minutos de jogo, com aquela pressão do Alvinegro, me deixaram louco. Tal como eu fiquei vendo a comissão de frente da Unidos da Tijuca (aquelas bailarinas trocando de roupa rapidinho é de deixar qualquer maluco, esperando que toda mulher faça a mesma coisa...). E as defesas do Jefferson, meu Deus do Céu. E pensar que eu já vi esse mesmo cara há uns cinco, seis anos defendendo o gol do Botafogo sem a metade da segurança que ele tem agora. O encaixe perfeito na hora da defesa me lembrou um ritmista de bateria segurando com carinho um surdo ou um tambor.

Foi quase um quarto de hora resistindo ao Flamengo. Tenho que dar o braço a torcer: o Flamengo estava bem melhor que o Botafogo. Criando mais, rondando com mais perigo. Acabou merecendo o primeiro gol. Merecendo o escambau, eu odiei. Tudo pra acender o “Império do Amor” (que nome mais apropriado, o Imperador e o Love). Enquanto isso, o “Ataque Mercosul” (Herrera, argentino e El Loco Albreu, uruguaio) estava mais apagado que a Viradouro falando do México na Avenida. Nem tanto, o Herrera corria com sua raça habitual. Mas o Loco estava isolado!!! Ele não é cara de ficar esperando chuveirinho...ele gosta de pegar na bola e enlouquecer!

Claro que a roda que rege a sorte e o azar resolveu me pregar uma peça. Àquela altura do jogo, as reclamações tinham cedido espaço à duvida: será que eu não estava pegando pesado e não devia esperar um pouco mais? (Como na apuração, torcendo pra Tijuca levar o título. Não sou tijucano, mas o desfile me encantou de forma a torcer muito. Quando a Tijuca e Beija-Flor andavam empatadas, eu era só impaciência. Uma hora, alguma delas tinha que ficar à frente.). A resposta veio a seguir: Loco Abreu pegou um bolão, lançou pra Herrera. A pelota explodiu nas mãos de Bruno e eu já pensava: “Mas que m....” quando o Marcelo Cordeiro atirou pro fundo do gol. Voltei a ser um pirralho de três anos que via um desfile pela primeira vez na vida.

E pra dizer que não teve polêmica, teve. Duas de uma só tacada. O Fahel tinha que ser expulso e não foi, o juiz voltou atrás. Ainda bem, por que senão 10 dariam a seminfinal de bandeja pro Flamengo. Que droga, por que aquele ali e nada são a mesma coisa. Eu não jogo nada, mas o Fahel...deixa pra lá, a crônica é de festa. Não vamos estragá-la. Depois, foi o Loco – ávido pra fazer um gol - que meteu a mão na bola pra deixar o seu. Como uma escola que vê seu carro emperrar quase em cima da banca de jurados e corre pra não ser prejudicada.

Já no segundo tempo, minha mãe – uma senhora muito distinta que não entende nadica de futebol, mas se esforça – me alertou: “Quem não faz, leva!” (falando do Botafogo que não criava) e eu devolvi na mesma moeda: “Quem não faz, leva mesmo, mãe!”(falando do Flamengo, que criava, chutava e perdia). Nessa altura do campeonato, a cena do Vagner Love – que mais parece um mico-leão-dourado com aqueles trecos vermelhos na cabeça – lamentando o gol evidenciava um pouco o que eu disse à minha mãe. No carnaval do futebol, nem sempre a melhor escola sai vencedora. Às vezes, quem ganha é a que tem o melhor desenvolvimento do tema (melhor tática) e o melhor patuá (sorte).

E o Botafogo tinha um patuá daqueles. Dois, pra falar a verdade. Um deles estava na beira do campo e apesar de pagar de pudim de cachaça, ele tá acertando o time. O outro, novinho, entrou em campo e numa jogada inacreditável virou o placar. Ver a torcida do Fogão cantando: “Vou festejar, vou festejar, o teu sofrer, o teu penar” era de arrepiar. Ver como a Roda mexeu os pauzinhos e soprou a sorte no caminho do Botafogo era incrível. Ver como o Caio é sortudo era fantástico. No final das contas, não tinha mistério. Ao contrário da Tijuca, que foi campeã falando e fazendo mistério, o Botafogo venceu na sorte. Contando com a garra de alguns, a sorte de outros e a estrela do Caio.

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