domingo, 31 de janeiro de 2010

Ópera da Cidade

Pelas ruas, esquinas e ladeiras
Luzes despertam antes do poente
É o crepúsculo cruel e misterioso
Que revela as chagas e o dia acoberta
Faróis vermelhos se destacam do alto de viadutos
Buzinas gritam loucas numa ópera raivosa
Carros se enfileiram numa linha errada e errante
Mil destinos regem cada uma dessas almas
Que apertam os cintos ou cortam os pulsos
São as vozes da impaciência, da pressa
De chegar ao horizonte, tão longe, tão escuro
Céu perverso, almas mais ainda
Maldizendo o que tem mais que elas
Toda a confusão nas avenidas abertas e paradas ao léu...
Um mar cuja música contagia e enfurece
E a famigerada turbulência que sempre aparece na janela
Derrama-se em notas desconcertantes num palco de buracos...

(Danilo Julião – 11/06/2009)

Juízo final

Chega a ser difícil olhar pro mundo ao meu redor. Eu sei, eu sinto, a tempestade se anuncia. Hoje à noite todos os meus medos vão se libertar do baú e vão me perseguir numa cavalaria de fantasmas. Os portões dos céus estarão escancarados deixando correr pingos grosso que marcarão o chão como uma adaga perfurando a pele. Os “Quatro Cavaleiros” estão soltos pelo ar, todos juntos no meio dessa tormenta. Não gosto de tormentas. Prefiro a calma. As luzes se apagaram, a ventania está lá fora. Os fantasmas ganham luz, podem ser vistos a qualquer momento. Não sei o que fazer, tenho medo de mexer com tais entidades. Perco a calma a cada raio que cruza os céus e fuzila a terra. Logo me lembro do cadáver que eu deixei estirado no chão, o instrumento que cortou o fio de sua vida. Esqueço o porquê de tê-lo matado, esqueço o fio de desentendimento. O meu medo se torna supremo e não dá espaço para qualquer outro sentimento. Me sinto um invisível, pequeno e miserável mosquito no meio dessa orquestra sinfônica de arranhar os ouvidos. Quem vai saber o que acontece comigo? Quem vai saber que eu o matei? O assassinato ficará impune. A lei dos homens não há de me pegar. Não há. Meu Deus, o raio atingiu a casa. Toda escuridão se dissipou. Agora as chamas consomem tudo. Pule no fogo, pule no fogo, dizem os fantasmas. Eu não sou maluco, vou pular pra fora do fogo. O salto pode não ter sido o mais perfeito, mas fugi das chamas. Ou pelo menos, achei que tinha fugido. Ainda estava no meio das chamas, eu estava preso no meio das chamas. Era o fim, eu sabia. Os fantasmas estavam rindo. Não tinha mais jeito.


(Texto influenciado pelo álbum "Kill'em All", do Metallica. Nem um pouco autobiográfico.)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Carmina mortis

Com um céu grená sobre minha cabeça
E as sombras da tarde-noite ao meu redor
Caminho sobre pedras, palavras e besteiras
Num rumo torto, que a terra fria guia
Seguro meu corpo com todas as forças
Afago as dores e feridas, as chagas sem medida
Iludido coração que caiu em todos os buracos possíveis
Chego, sem perceber, a um jardim vazio
Cuja vida se esvaiu com as folhas do outono
E o que restou foi um tapete de folhas velhas
Talvez uma vida velha que tenha desaparecido
Espaço aberto, as cores esfriando em segundos
Tão dolorosos como o parto de um plano quase impossível
O Cansaço me vence ou eu o vença ao chegar aqui?
Aqui, onde almas dormem ao relento e esbravejam no sono eterno
Orquestrando um coro contra o novo mundo onde se encontram
Elas se rebelam, mas esquecem que se entregaram tão fácil
Quando havia as cores, queriam as cinzas e as tem,
Embora nada fosse do que elas queriam
Esse lugar é demais para mim, como eu cheguei aqui, não sei dizer...
(Ou talvez eu saiba, mas não seja válido dizer nas linhas)
Ainda caminho, apenas sobre as pedras, rochas, penhas tímidas
Enquanto descubro as cores da noite, tapete estrelado
Donde um refletor me mostra uma nova aquarela
Que está além dos olhos, além dos pensamentos.


(Danilo Julião – 18/06/2009)

Contra o ócio dos tempos

Pensei em todo o tempo em que eu desperdicei tentando tirar alguma idéia e transpor para o papel e na frustração que cada insucesso me causou. Às vezes, não se trata de falta de inspiração ou priorizar outras coisas que não o expressar das palavras. É que não é momento certo de exercitar essa habilidade tão única e tão preciosa. Mas existe ‘momento certo’ para escrever, colocar o que você está sentindo nas linhas de uma folha? Não mesmo. E por que, a cada falha, o escritor se entrega à desistência ou à outra tarefa e não envereda pelo caminho guiado pela chama da persistência? Há tanto o que dizer, mas o mundo cala. Só resta o abrigo do papel, que pode ir ao conhecimento das pessoas ou não, ser limitado a um pequeno universo. Geralmente prefere-se o universo, onde se sabe que a compreensão será total. O mundo real está mais preocupado em contas, luxos e pequenos caprichos e prefere essas futilidades a ler e criar suas próprias idéias. E muitas vezes eu sinto esse peso acima da minha cabeça e deixo de lado o que aquece meu cérebro e não me deixa morrer de tédio e ócio. Aos escritores é dado o papel daqueles que só observam a vida. Não é bem assim, eles representam a vida do jeito que enxergam, por mais único ou deturpado que seja ou pareça. Claro, nem tudo pode ser chamado ‘expressão de idéias’, mas a sociedade – ou melhor, todos nós relegamos toda essa riqueza que é o pensar, o ilustrar da vida a segundo plano e dita as tendências do que é mais importante, mais válido. Por isso, encaro essa contracorrente como um incentivo para não parar de escrever. Por saber o que acontece caso eu abandone essa luta tão íntima e ao mesmo tempo tão pública.

Danilo Julião – 09/05/2009

No meio de uma rua de subúrbio

Era uma vez uma rua no meio de onde eu nem sei. O céu não estava azul, mas se sentia o vapor do mormaço queimando na pele. O chão não era de terra batida, mas me lembrava a infância que já passou. A fumaça branca que saía da casa indicava movimento e reunião. No outro lado da rua, três mesinhas de bar. Risos em toda parte. Era uma turma reunida, entre conversas, cervejas e refrigerantes. O tempo que passou vinha na memória com as situações, os micos, tudo. O coração do subúrbio era palco do encontro. O casal trocando beijos, os amigos tirando sarro, aquele cara da ponta cantando a mina da outra ponta. O samba bem vindo enchendo o ambiente. A vizinha mocréia e faladeira reclamando da festinha, sempre tem que ter alguém pra roubar a cena da pior forma. “Eu seguro o pagode e não deixar”, “podemos sorrir nada mais nos impede”, “Derramamos pela nossa voz cantando a alegria de não estarmos sós”. A brasa no ponto, o calor abrasador, o fervo, o batuque, o fim do mundo, tudo num espaço de horas. Era um momento feliz de se guardar.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Crônica de ano-novo

Eram quase meia-noite, 31 de dezembro de 2009.

Eu tinha parado para pensar em tudo o que tinha acontecido naquele ano que estava próximo do fim. Não tinha pouca coisa. Foram pequenas aventuras, grandes descobertas. De alucinações a alegrias até tristezas e decepções. Aquele cara que tinha começado o ano estava longe de ser aquele que estava ali no quintal, olhando pro céu, segurando uma moeda de um real, o único real que tinha sobrado dos últimos 365 dias. O único resquício frio que eu carregava com apenas dois dedos. Eu olhava o céu na esperança de que o ano terminasse. Não por que o ano que tinha passado fora duro demais comigo, mas por que eu sabia que um ciclo novo deveria começar. Não havia cicatriz no rosto, ferimentos: eles estavam debaixo da minha epiderme. Que tal deixar a poesia de lado e enxergar com lógica o que vinha pela frente? Não consigo. Faltam dois minutos pra meia-noite. Se eu o fizer, não serei mais eu. Viver sem poesia é como viver sem ar, não importa se é em verso ou prosa. Eu já tinha abandonado o ato de escrever tempo demais. Precisava daquilo. E como faltava um minuto e meio para 2010, não tinha mais como fazê-lo naquele momento. Um minuto pra meia noite. Bom, não tem mais o que dizer ou esperar. O ano vai virar, os textos podem esperar. Até lá, resta apenas os olhos no céu, esperando os fogos explodirem. Virou o ano, agora eu não quero saber de mais nada.

A beleza dos jornais e a das poesias

Eu bem sei que pensar na vida como uma desgraça sem fim não ajuda em nada. Como também pensar na vida como um desfile de samba que vai até a manhã não funciona. Então, o que vale a pena? Equilibrar as duas coisas?

Olho os jornais e só vejo tragédia, o que chamam de mundo real, cruel, frio e calculista.

As músicas e poesias cantam o que os jornais dizem, então por que elas não são tão levadas a sério? Por serem escritas em versos brilhantes ao invés da prosa fria?

Não, não sou inimigo da prosa. Sou inimigo daquela prosa que tira o brilho intenso da vida. Que a mostra sem emoção, sem sentimento. Geralmente, quando eu vejo muitos textos de jornal, tenho a impressão de estar preso no meio de um cenário cinzento e frio.

O que nos chama a atenção é o grotesco e o hediondo. Esse é o nosso veneno que vem diariamente impresso ou digitalizado. São os crimes pueris, as corrupções, as mazelas, as lepras que escondemos com botox e colágeno. Já pararam pra pensar que a gente prefere a leitura de um “Expresso” de manhã em lugar de ver o sol nascer no horizonte que recorta a serra? Preferimos o silêncio na sala ao ver o jornal do que ver a família reunida num dos raros momentos do dia. Às vezes, descartamos até a companhia dos filhos pra assistir as notícias com sossego. E enquanto isso, o que vale a pena fica de lado.

Já sei, tem quem vai me chamar de vagabundo. Poeta é sinônimo de vagabundo.

O que vale é ter um emprego, um vale alimentação, um celular da moda.

Eu prefiro ouvir um samba das antigas e sair cantando por aí.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Inocência nos tempos de escuridão

Quando o jogo acabou, eu mal podia acreditar.
Naquele instante, eu só conseguia olhar pra frente. Os olhos incrédulos, a boca sem ter o que falar, as mãos trêmulas de raiva. Em frente a mim, um gramado castigado pelas botinadas. Do meu lado, outros tantos botafoguenses tão ou mais cabisbaixos que eu. Antes, um louco qualquer incendiou a camisa do Botafogo quase do meu lado. Não sei se choro de tristeza ou de raiva. Não sei se culpo a diretoria ou a mim próprio por tirar leite de pedra, nutrir esperanças de onde não tem. É quando eu vejo, no meio do estádio vazio, um menino qualquer. Não sei quem é, quantos anos tem, de onde vem. Mas ele está lá, balançando sua bandeira do Botafogo. O Botafogo perdeu, foi massacrado em campo e ele balança sua bandeira com uma alegria que não condiz com o momento.
Um dia ainda vou entender o gesto dele. Se houver algo para entender.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Papo de novela

- Amor, vem cá. Quero te mostrar uma coisa.
- Benhê, pode ser depois? Tá na hora da novela...
- Poxa, mô...todo dia eu te chamo pra jantar comigo na mesa e você quer assistir a novela.
- Ah, querido. Hoje é especial.
- Sei...você fala isso todo santo dia...
- Vem pra cá, assistir comigo...
- Tá bom...
(Dez minutos mais tarde)
- Viu só? Entendeu por que eu não podia perder a novela?
- Na verdade, não.
- O Jorge e o Miguel brigaram por causa da Luciana. Saiu até porrada, foi tenso!
- O cara é um ótimo ator e mandou bem na cena. Nada demais.
- Nada demais? Foi uma briga daquelas, todo mundo ficou esperando por essa cena! No trabalho só falavam disso.
- É. As pessoas se juntam na frente da TV pra ver os dois irmãos brigando por causa de mulher. Pra que?
- Entretenimento, chuchu.
- Bom, se me permite dizer, não vejo graça. A vida é curta demais pra eu ficar fomentando confusões direta ou indiretamente.
- Você está exagerando, benhê. Tá sendo melodramático.
- Pode até ser. Mas nem tem motivo. As pessoas só gostam de ver o que ruim, trágico ou acaba em confusão. Não dá pra entender, simplesmente não dá.

Túmulo aquático

Das rusgas se fez meu pranto silencioso
Como ondas do mar numa noite escura
A dor desse lamento ainda perdura
Dividindo espaço com um veneno furioso
Leito derradeiro e inóspito, rodeado de corais
Espumoso, onde o sol e a lua dormem sorrateiros
Eis onde durmo coberto por uma grande cortina azul e triste
Ausente de pensamentos e de paixões, loucuras bobas
Apenas um pequeno cristal no meio de um coração de safira
Que em silêncio repousa e compartilha do meu sono profundo
Observa, sem entender, o porquê de tantos maldizeres
Que a serenidade cala, após árduas tentativas
Velas ao vento passam a lado do meu corpo estirado
Contemplam minha penumbra branda
Nada sou, nada fui, nada serei
Provei do meu próprio elixir mortal
E aqui permaneço
Ó, tumulo aquático, leva de mim todo o pesar
Para quando eu voltar, ah! quando eu voltar
Do sono quase eterno
Nutrir a pureza de um amor terno.

(Danilo Julião -16/06/2009)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Duas caras

- A sexta tá morta, não acha?
- Eu já vi sextas melhores. Mas não quero ir pra lá de novo.
- Por que não? É garantia de algum divertimento.
- Eu to cansado de ir por mangue toda sexta. Acontecem as mesmas coisas lá.
- Mas tem mulher bonita e isso vale a pena. Ou não?
- Vale sim, pow. Tu sabe que vale muito. Mas hoje não. Quero ficar no meu canto curtindo o tédio.
- Ou você não quer ir por causa da Luciana?
- O que a Luciana tem a ver com isso? Por que ela foi entrar na conversa?
- Você sabe do que eu to falando. Eu vi vocês juntos semana passada.
- O que tem isso?
- Cara, você sabe que eu gosto dela.
- E só por que eu tava falando com ela significa que eu to a fim?
- Joca, dá pra ver na sua cara quando você fala com ela...por que a minha garota?
- Beto, duas coisas: um, ela não é sua garota; dois, eu não quero ela.
- Claro que quer, você tá querendo me enganar. Muitos vieram me falar que você é caidinho por ela.
- Quem? Quem veio falar isso pra você?
- Muita gente. Ah, não vou me preocupar com nomes. É melhor você dizer de uma vez e parar de ficar negando o que está claro!
- (João fica sem acreditar no que ouve) O que está claro? Você pirou de vez? Beto, nós somos amigos desde a oitava série. Acha mesmo que eu colocaria a nossa amizade a perder por causa de uma garota?
- Como a Luciana, acho sim.
- Eu não acredito que to ouvindo isso...
- Vai falar ou não?
- NÃO! Não vou falar do que eu não faço! Você está fora de si, achando que eu to em cima dela.
- Eu sei que é verdade! Fala logo ou...
- Ou você vai quebrar a minha cara? Hein? QUEBRA ENTÃO, PORRA! Mesmo assim você não vai se mancar que ela não gosta de você!!
- O QUE?
- Isso que você ouviu. Ela não gosta de você!
- Não dá pra acreditar!
- No que?
- Você tá colocando ela contra mim, não é? Só pra você pegá-la...
- Não acredito... vai começar tudo de novo?? Eu sempre achei que você era paranóico, mas agora estou confirmando.
- Por mim, você acha o que quiser... mas dá pra ver segundas intenções nos seus atos!!
- Segundas intenções? Você tá louco...eu posso ter a mulher que eu quero, é só eu chegar nela e tá feito. Ao contrário de você, que fica nutrindo essa obsessão pela Luciana. Agora eu entendo por que ela não tá a fim de você!
-(Beto, completamente alterado) Do que você tá falando? Ela nem sabe quem você é...você só começou a falar com ela por que eu pedi pra você ficar em cima dela, sondando a situação pra mim!
- CHEGA! Você tá distorcendo tudo! Eu já falava com ela antes de te conhecer. VOCÊ é que só começou a falar comigo por causa dela!
- Eu nunca devia ter confiado a você essa tarefa! Aliás, não devia ter confiado em você nunca! Eu devia ter chegado nela sozinho. Não tinha que ter me aproximado de você.
- É isso que você quer dizer?
- É. Isso mesmo. Já estava na hora de eu te dizer isso. Acho que só agora você percebeu.
- (João em estado de choque) E você consegue me dizer tudo isso com frieza?
- Não posso fazer nada.
- Mas eu posso. Acabou, cara. Eu não quero mais olhar na sua cara. E tem mais: você nunca vai ficar com a Luciana e sabe por quê? Por que ela te odeia, te acha um idiota de marca maior. Ela pediu pra eu te falar isso. E mais, ela já tem namorado. E sou eu. SOU EU! Você achou que estava me enganando esse tempo todo, mas errou. Errou feio.
- Você namorando ela? Como é possível? Você nunca me disse nada. Todo esse tempo eu achava que vocês eram apenas amigos... Não, você está brincando. Você não seria tão esperto assim...
- Você diz isso por que me acha um otário!
- Acho sim. Um otário egoísta e sujo.
- E você é um idiota total. Eu estou namorando sim. Você não vai tê-la tão cedo!
- Sai daqui! Sai daqui, agora! Eu nunca mais quero te ver, João!
- Adeus, Beto. Até nunca mais.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Esboço inicial

Escrever pra mim é um desafio e também uma paixão. Lembro das primeiros textos que eu escrevi, quando eu era um pouco mais novo. Naquela época, eu carregava meu ímpeto de iniciante que queria alcançar a perfeição logo e assim ter certa notoriedade com algumas crônicas. Meu primeiro contato com elas tinha sido com um livro do Nélson Rodrigues, “A Pátria em Chuteiras”. Eu tinha meus 18 anos e fiquei louco com aquelas crônicas, que pareciam ter um brilho e um colorido próprio. Ao lê-las eu me sentia sentado num estádio pequeno, ou melhor, um alçapão. E eu não tinha torcida definida, torcia por algo maior que um time de futebol. Cada letra representava um drible, uma furada de bola, um gol, uma festa da torcida. Eu tinha me teletransportado para um universo mágico, cujas possibilidades eram maiores do que eu imaginava. A partir daquele momento, eu queria escrever crônicas de futebol, só de futebol. Depois comecei a me interessar por outros assuntos, mas o futebol nunca se afastou de mim. Mas passou o tempo, eu fui ficando mais velho, fazendo mais coisas e assim comecei a perder as oportunidades de ver um jogo e escrever sobre ele. Alguns jogos com um ambiente propício pra explorar a imaginação e traçar contornos que nem mesmo eu sei. Logo eu percebi um dos motivos que explicavam o porquê de eu não conseguir escrever: só podemos escrever sobre o que a gente sente de verdade, o que a gente sabe, no fundo do nosso coração. E num determinado momento, não sei explicar quando, eu não conseguia passar esse sentimento aos meus olhos. Como se eu tivesse perdido minha essência. Como se eu escrevesse com medo do que as pessoas iam pensar de mim. Com isso foram tantas as chances que eu fui perdendo ao longo do caminho. Mas isso são águas passadas e como diz o ditado: elas nunca movem moinhos. Mais vale escrever os textos como se fossem partidas de futebol que deixá-los para depois. Se for assim, que assim seja. Nem que eu tenha de fazer jus ao nome desse blog e realizar cada texto num tranco literário.