Eu bem sei que pensar na vida como uma desgraça sem fim não ajuda em nada. Como também pensar na vida como um desfile de samba que vai até a manhã não funciona. Então, o que vale a pena? Equilibrar as duas coisas?
Olho os jornais e só vejo tragédia, o que chamam de mundo real, cruel, frio e calculista.
As músicas e poesias cantam o que os jornais dizem, então por que elas não são tão levadas a sério? Por serem escritas em versos brilhantes ao invés da prosa fria?
Não, não sou inimigo da prosa. Sou inimigo daquela prosa que tira o brilho intenso da vida. Que a mostra sem emoção, sem sentimento. Geralmente, quando eu vejo muitos textos de jornal, tenho a impressão de estar preso no meio de um cenário cinzento e frio.
O que nos chama a atenção é o grotesco e o hediondo. Esse é o nosso veneno que vem diariamente impresso ou digitalizado. São os crimes pueris, as corrupções, as mazelas, as lepras que escondemos com botox e colágeno. Já pararam pra pensar que a gente prefere a leitura de um “Expresso” de manhã em lugar de ver o sol nascer no horizonte que recorta a serra? Preferimos o silêncio na sala ao ver o jornal do que ver a família reunida num dos raros momentos do dia. Às vezes, descartamos até a companhia dos filhos pra assistir as notícias com sossego. E enquanto isso, o que vale a pena fica de lado.
Já sei, tem quem vai me chamar de vagabundo. Poeta é sinônimo de vagabundo.
O que vale é ter um emprego, um vale alimentação, um celular da moda.
Eu prefiro ouvir um samba das antigas e sair cantando por aí.